Levantai Hoje de Novo...

O amor físico dos livros

Submetido por SMP em 21 Maio, 2005 - 17:26



Liam Quin, Antique Books

Há um ano, talvez dois, no meu alfarrabista favorito - a livraria do Nuno Canavez (Pai), em Mártires da Liberdade, uma senhora nova tentava passar a patacos a biblioteca da mãe que, segundo ela mesma explicou, estava no hospital com uma perna partida. A coisa arrepiou-me. A senhora internada, feita marioneta de gesso, e a descendente pressurosa a esvair contra dinheiro sonante aquilo que a mãe, mais que provavelmente, levara uma vida de carinho a seleccionar. Aqueles livros naquela combinação concreta eram o mapa da alma de alguém, dos seus gostos, dos seus enternecimentos. Vender a biblioteca de alguém está pouco aquém de colocar no mercado o seu perfil emocional.
Não tenho, senão a um nível muito reduzido, o amor físico dos livros. Não sou uma bibliófila no sentido de coleccionar raridades, de perscrutar as livrarias em busca de exemplares ou edições concretas. Sou uma amante funcional dos livros. Amo-os pelo seu conteúdo, pela ponte que estabelecem entre mim e a mente do escritor, pelo que têm para me dar. Pouco me importa a veste que tragam. Amo os paperbacks com a mesma intensidade das capas rígidas, e as enésimas edições com a mesma solenidade das primeiras. Talvez pudesse ter algum empenho numa primeira edição de um autor-fetiche que povoasse as minhas preferências, mas nada que me roubasse o sossego. Nada, especialmente, que ultrapassasse o capricho de possuir o manuscrito daquela obra ou a sua caneta, as suas lunetas, o seu contador. No demais, o meu apego aos livros concretos surge a posteriori, como gratidão, quando constato que aquelas específicas folhas de papel e não outras me guiaram pela primeira vez pelos recantos da entidade etérea, a ideia, a obra intelectual a que chamo livro. Sou uma platónica, no fundo.
Entendo e admiro, todavia, quem sente diferentemente esta relação. Achei especialmente interessante, talvez pela profunda marca que em mim deixou o episódio contado no início, o artigo Como Aparecem Bibliotecas em Leilões, no Rato de Livraria.

( categories: Levantai Hoje de Novo... )

A cura numa bandeja?

Submetido por SMP em 20 Maio, 2005 - 16:18



Traduzido e (ligeiramente) adaptado deste artigo da Wired, via Slashdot:

Cientistas coreanos usaram embriões humanos clonados para obter células estaminais «à medida» de e para pacientes doentes. Trata-se de um feito com enormes implicações para o desenvolvimento de terapias eficazes baseadas naquelas células e que pode mesmo revolucionar o debate sobre a clonagem humana. Em tempos uma possibilidade remota, a existência de células humanas que podem teoricamente ser transplantadas para os indivíduos sem receios de rejeição pelo organismo é hoje uma realidade.

Os investigadores deverão agora testar as células em animais antes de tentar a terapia com os humanos. De qualquer forma, a comunidade científica está já perplexa e maravilhada com este desenvolvimento, que muitos viam como ficção científica até Woo Suk Hwang e os seus colegas da Universidade nacvional de Seoul publicarem este estudo na edição de 20 de Maio da Science. Há pouco mais de um ano, Hwang e os seus colaboradores derivaram as primeiras células estaminais de um embrião humano clonado.

Com o advento de aplicações práticas de tal forma importantes para o Homem, e a possibilidade de tratamentos e curas décadas mais próximos, os defensores da clonagem humana esperam que seja agora mais difícil banir a investigação neste campo, como muitos legisladores e líderes religiosos propuseram. Estes terão agora de encarar milhões de pacientes que procuram a solução para os seus problemas médicos.

Desde 2001 os cientistas norte-americanos estão proibidos por uma
executive orderde clonar embriões para obter células estaminais - procedimento conhecido como clonagem terapêutica. Vários estados ilegalizaram a clonagem humana, mas nenhuma lei nesse sentido chegou ao Senado.

Os investigadores que acreditam no desenvolvimento de terapias a partir de células estaminais embrionárias enfrentam a oposição de grupos religiosos e dos llobies pró-vida que acreditam que um embrião nunca deverá ser destruído para fins de pesquisa (a destruição do embrião é resultado necessário da obtenção das células). Estes grupos opõem-se ao financiamento federal da investigação neste campo, que muitos querem ver alargado depois de em 2001 o Presidente Bush ter estipulado que só as céulas estaminais já derivadas eram elegíveis para aqueles apoios.

Foi no sentido de alargar aquele financiamento que Mike Castle, congressita republicano, propôs The Stem Cell Research Enhancement Act. Ainda assim, este diploma apenas prevê que o financiamento passe a abranger a investigação que utilize os embriões excedentários das clínicas de freetilização in vitro, excluindo a criação especíifica de embriões com este fim - o que em última análise impediria os investigadores apoiados pelos fundos federais de aproveitar os avanços de Hwang. researchers to take advantage of Hwang's advancement.
Seja como for, o benefício potencial, para os pacientes, deste tipo de pesquisa, é cada vez maior, o que não poderá deixar de ser tido em conta pelo Congresso quando este decida sobre a legislação a adoptar. Pela primeira vez foi provado, e não meramente especulado, que a clonagem terapêutica pode ter utilidade médica efectiva, pondo fim às dúvidas que até aqui existiam sobre a possibilidade biológica de um tal aproveitamento.
Além de testar o novo método em animais, é necessário provar, antes de mais nada, que a utilização de células estaminais embrionárias em geral em pacientes é cem por cento seguro. Trata-se de testes que ainda escapam, pelo seu âmbito, quer às proibições da clonagem quer às restrições de financiamento - as células estaminais que são usadas não são ainda derivadas da clonagem. Todavia, ninguém duvida que o passo seguinte, se os resulyados forem positivos, será o teste em humanos das próprias células estaminais de embriões clonados.

Hwang e os seus colegas utilizaram uma técnica semelhante à que resultou no nascimento da ovelha Dolly em 1996. Uma das chaves para o seu sucesso foi a utilização de óvulos colhidos em mulheres novas e férteis, em vez dos já prontos embriões excedentários das clínicas de fertilidade. As mulheres que se voluntariaram para o estudo prestaram o seu consentimento informado e não receberam qualquer tipo de contrapartida.

Para proceder à clonagem os cientistas removem o núcleo de um óvulo e substituem-no com uma céula do ser a clonar, normalmente uma céula da pele. Normalmente, os cinetistas usam uma seringa vazia, mas a equipa coreana preferiu abrir uma pequena brecha no óvulo e «espremer» o núcleo para fora. Inseriram posteriormente a célula epitelial através da abertura e atravessaram as células com um choque eléctrico para despoletar a divisão celular.

Outro aspecto surpreedente do estudo, segundo os investigadores, é a forma como Hwang foi capaz de aumentar significativamente a eficácia da sua técnica. O ano passado, quando Hwang pela primeira vez obteve células estaminais a partir de um embrião clonado, sofreu 200 tentativas falhadas antes de obter êxito - o que significou destruit mais de 200 óvulos doados. No seu último estudo, a média de falhanços baixou para 20. Significa isto que, na maioria dos casos, uma mulher que esteja a tomar medicação para estimular a ovulação poderia, num único ciclo menstrual, doar óvulos suficientes para sustentar toda a terapia de um paciente.
Ainda assim, slguns grupos feministas estão preocupados com a hipótese de a saúde das mulheres estar a sder posta em risco para a criação destes embriões. Nigel Cameron, do Centro para a Bioética e a Dignidade Humana, partilha dessa opinião, recordando que, se por um lado o estudo dininuiu o número de óvulos necessários, por outro trouxe a técnica para mais perto da realidade, assim aumentando a procura dos gâmetas.
Os cientistas concordam que um método que não pusesse em risco a saúde das mulheres seria preferível, mas recordam que, em alguns casos, tal como sucede com a doação de órgãos, os benefícios podem ultrapassar largamente os riscos, mesmo do ponto de vista da doadora. A este respeito diz Jose Cibelli, da Universidade do Michigan: «Não há grande diferença entre ter uma mulher a sofrer ou ter três ou quatro. Ainda temos de arranjar uma forma melhor de fazer as coisas. Mas se pensarmos em termos dos nossos familiares - talvez uma filha, uma irmã ou uma mãe possa ajudar, e se um ciclo ou dois ciclos for tudo o que tem de suportar (para doar os óvulos), muitas pessoas o farão».

É claro que sim. Digo eu...
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Do conceito de «acomodações razoáveis» num contexto prisional

Submetido por SMP em 18 Maio, 2005 - 22:13




Interessante este artigo do Plastic (tradução nossa muito pouco fidedigna):

A maioria dos prisioneiros das cadeias norte-americanas que dirigem petições ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos (a sigla para a expressão em inglês é SCOTUS) pretendem com isso ver revogadas as sentenças que os condenaram. Tony Goodman, todavia, não é como a maioria. Goodman tem ocupado uma cela de 3 metros por 2,5 em Reidsville, Georgia desde há quase uma década. A sua petição ao SCOTUS não se traduz num recurso da sua sentença de prisão - de resto, ele conta no seu historial com uma longa lista de recursos devido à forma como tem sido tratado pelo sistema judicial. O que Tony Goodman procura é antes uma cela que cumpra os requisitos do Americans With Disabilities Act (ADA).

Goodman queixa-se de, mais do que meramente encarcerado, estar espremido na sua cela de prisão. Paraplégico já à data da sua condenação por posse de cocaína e ofensas à integridade física agravadas, Goodman está ligado a uma cadeira de rodas para sempre. Dado o espaço limitado da sua cela de prisão, diz que não consegue voltar a sua cadeira ou usar as instalações sanitárias. Também não tem acesso ao acompanhamento psicológico, aulas e serviços religiosos que são assegurados aos outros prisioneiros.

O caso deve ser realmente preocupante, já que o próprio Departamento de Justiça formulou uma moção a favor da queixa de Goodman. O entendimento do departamento é que as normas de protecção do ADA devem ser aplicadas também às cadeias.
A aplicabilidade do ADA à actuação estatal tem evoluído ao longo dos anos. O ano passado o Supremo decidiu que o Título II daquele diploma se aplicava também ao Estado no sentido de este ser obrigado a providenciar acesso adequado aos deficientes físicos nos seus tribunais.

A petição de Goodman pode acabar por ter implicações muito mais vastas e mais onerosas para a nação. O número de tribunais afectados pela decisão do ano passado cifrou-se nas centenas. Há actualmente 1,3 milhões de pessoas detidas nas prisões federais, a acrescer aos 700 000 das prisões locais. Não há uma estatística fiável que nos permita apontar quantos destes 2 milhões de prisioneiros são deficientes físicos. Se o Supremo decidir a favor de Goodman, estará com isso a abrir a porta a um enorme número de processos judiciais baseados na violação do referido Título II do ADA.

Esta notícia levanta (pelo menos) duas questões interessantes, ambas bastante mais latas do que o problema específico da situação de um deficiente físico numa cadeia estatal.
A primeira, já se vê, é a da própria existência de um princípio de legalidade da actuação do Estado, num Estado que se pretenda de Direito. Por um lado, não há justificação possível para essa Síndroma da Personalidade Múltipla que leva o ente estatal a, na sua veste de legislador, e feita uma determinada ponderação de interesses, criar normas que crê soluções razoáveis e por isso impõe aos seus cidadãos, e a, num momento seguinte, ceteris paribus, desviar-se dessa mesma ponderação e incumprir os requisitos que ele próprio impôs. Mais do que isto, é de uma irracionalidade gritante pretender impor aos seus cidadãos (súbditos) regras de comportamento que não pretende cumprir.

A segunda questão, que aliás dá título ao artigo do Plastic, é a do que devam ser consideradas «acomodações razoáveis» num contexto prisional. É óbvio que não se pode defender, com honestidade intelectual, que aos reclusos seja assegurado o conforto de um hotel de cinco estrelas. Por um lado, porque não é atribuição do Estado assegurar a qualquer dos seus cidadãos, detido ou não, um nível de vida que ultrapasse os requisitos básicos compatíveis com a dignidade humana. Por outro, porque isso seria forçosamente uma injustiça para com todos aqueles cidadãos que, precisamente porque se conformam com o direito vigente, buscam melhorar as suas condições através do seu trabalho, e suam to make ends meet. E ainda, poderiam aqui acrescentar alguns, porque uma tal atitude não seria consentânea com o sentido da própria condenação, retirando-lhe eficácia.

Ora, é com este último argumento que eu não posso concordar. A medida certa do conforto que o Estado deve estar obrigado assegurar àqueles que, mercê da condenação por acto ilícito, caem sob a sua custódia, deve ser encontrada ponderando apenas os dois primeiros argumentos - e quiçá outros que eu não alcance - não devendo passar por aquela última consideração de sentido ou eficácia.
Falar de eficácia da pena de prisão implica, obviamente, saber qual é o objectivo do Estado com essa mesma pena; só se pode conhecer se uma coisa alcança os efeitos pretendidos uma vez determinados quais são esses efeitos almejados.
Tal é a questão do sentido ou das finalidades da pena, que não pretendo aqui desenvolver ad nauseam, por haver locais onde os (poucos) a encontrariam muito mais bem explicada. Ficarão apenas umas linhas que permitam alicerçar a tese que delineei.
A essa luz pode dizer-se desde logo que, de entre as várias teorias que têm sido defendidas ao longo dos tempos acerca do sentido ou das finalidades da sanção penal, apenas duas poderiam suportar aquele argumento que repudio: a teoria da prevenção geral (in short: a pena serve para dissuadir os membros da comunidade de seguir o caminho do crime: a priori, pela mera ameaça; a posteriori, pelo exemplo do condenado e das consequências funestas que para este advieram da sua inconformidade com a norma) e a teoria ético-retributiva (in shorter still: a pena é o castigo do acto criminoso e do desrespeito pela norma que nele se consubstancia). Ora, a prevenção geral tem vindo a ser abandonada como esquema explicativo do objectivo da sanção penal por contrária à dignidade humana, na medida em que, tomando o condenado como exemplo dos seus pares, o instrumentaliza e lhe retira o seu estatuto de fim em si mesmo, passando o ser humano a mero meio de atemorização da comunidade. Por seu turno, a teoria ético-retributiva não teve muito melhor sorte, pela convicção de que não caberia ao Estado assumir uma atitude de vingança, apenas se justificando a repressão penal pela protecção da sociedade e não pela defesa de uma qualquer justiça moral mais ou menos definida.
Já nem mesmo a chamada prevenção especial negativa - que vê a pena como a forma mais eficaz de isolar o indivíduo criminoso, com isso protegendo a sociedade da antijuridicade dos seus actos, naquilo a que se costuma dar o nome de
inocuização - colhe os favores dos penalistas. O desenvolvimento do comceito de dignidade humana, já aqui referido, e um certo optimismo na forma de encarar o indivíduo e a capacidade da actuação da sociedade sobre aquele lançaram os Estados de Direito na adopção da chamada teoria da prevenção especial positiva como esquema teórico justificativo da própria existência da sanção penal. A ideia dominante não é pois já a de castigo, a de atemorização ou sequer a de inocuização (embora esta perpasse ainda em muitos pontos do sistema), antes se privilegiando a vertente da ressocialização. A pena, num tal contexto, será eficaz quando consiga a ressocialização do indivíduo e a sua reinserção na sociedade enquanto cidadão que se conforma com as normas de conduta aí vigentes.
Já se vê que, se do ponto de vista da prevenção especial negativa as condições em que uma pena de prisão seria executada eram pouco menos que indiferentes, na sua vertente positiva a degradação das condições de vida dos reclusos pode mesmo ser nefasta em termos de eficácia. Não podendo nós ancorar-nos na justiça ético-retributiva (o castigo seria tão maior qaunto mais penoso o cumprimento da pena) nem na esperança de dissuasão (quanto mais gravosas as consequências com que se acena aos potecniais criminosos, tantos mais de entre eles desistirão de praticar o ilícito), o penalista actual não pode encontrar justificação cabal para as condições degradantes em que vivem os detidos de muitas prisões por esse mundo fora, para além, claro está, de considerações pragmáticas que redundam, em última análise, na omnipresente falta de verbas.
É claro, não tenhamos ilusões: tudo isto fica muito bonito nos livros, mas está a milhas do que atravessa as sinapses do cidadão comum quando pensa numa condenação penal, especialmente quando se trate de uma pena de prisão. Para a comunidade jurídica - e sim, a comunidade jurídica somos todos nós, e não a meia dúzia de nefelibatas que pode compreender a fundo as normas que nos regem -, aquela ideia de castigo, aquela ideia de ameaça, aquela ideia de protecção ainda são muito mais vincadas e escoram em muito maior medida a existência de cadeias do que a esperança de uma regeneração. Todavia, o que é certo é que a prática de um determinado sistema, jurídico ou outro, criado pela mão do Homem, tem de ser lida sob o prisma, sob a lente que nos empresta o modelo teórico que lhe subjaz; todos os elementos dessa complexa orgânica devem ser coerentes entre si e servir objectivos a priori delineados. Ora, tais objectivos, aqui traduzidos nas finalidades da pena, não são os que a vendedora de flores da esquina associa à cadeia de Custóias - são aqueles que os parlamentares por ela democraticamente eleitos decidiram que deviam ser. Assim, nem o vincado fosso entre a concepção da pena de prisão da moderna filosofia penal e o entendimento que da mesma pena tem o comum dos mortais pode servir para derrogar as bases teóricas do sistema.

Mas cremos que, mesmo sem nos enredarmos na transcendente questão do sentido e finalidades da sanção, já poderíamos encontrar, no próprio conceito de prisão, motivos de repúdio para a ideia de que as más condições das prisões radicam em qualquer justificação sólida. De facto, aquilo que se associa à prisão não é esta ou aquela condição ou circunstância específica de privação da liberdade, mas a privação da liberdade
per se. A prisão é, e agora não já apenas em termos sistemático-legais mas ao nível do próprio senso comum, aquela sanção que se pauta pelo constrangimento da liberdade de movimentos constitucionalmente consagrada e protegida. Traduz-se naquela restrição física, só ao Estado permitida, que retira ao indivíduo a possibilidade de circular livremente, de decidir dos seus afazeres, de residir onde bem entender. Só esta característica é verdadeiramente intrínseca à ideia de prisão que, por isso mesmo, basta para caracterizar. Daqui também que aquela medida de coacção pomposamente denominada pelo Código de Processo «Obrigação de Permanência na Habitação» seja reduzida pelo vulgo - mesmo o vulgo jornalístico... - a «prisão domiciliária», não obstante as condições de conforto do detido serem, nesse caso, as mesmíssimas de que disfrutaria como homem perfeitamente livre da mão do Estado. Daqui também que outra medida de coacção, a mais gravosa delas, assuma o nome, aqui já no próprio Código, de «prisão domiciliária». E, repare-se, no caso da prisão preventiva nem de pena se pode falar, pois que estamos numa fase prévia do processo, muito anterior a uma condenação; mesmo para os adeptos da prevenção geral ou da ético-retribuição, nunca ao detido preventivamente poderia ser sonegado pelo menos o conforto compatível com a dignidade humana, porquanto não se pode justificar à luz daquelas teorias uma prisão que não é ainda uma sanção penal.

Todas estas constatações redundam numa conclusão: aos reclusos das nossas cadeias deve o Estado assegurar o parco conforto que se considere exigível à luz do entendimento moderno dos direitos humanos. Por discutível que essa medida seja, parece ser possível afirmar objectivamente que não constitui o critério actual dos nossos estabelecimentos prisionais, nem de muitos outros, por esse mundo fora. As prisões não podem ser depósitos infectos de seres humanos se, como dizemos, pretendemos reailitá-los; mais do que isso, não podem ser armazéns de pessoas porque, no Estado actual do desenvolvimento humano, acordámos (e será mesmo uma questão de convenção?...) repudiar as penas humilhantes e degradantes; mantivemos no Estado a possibilidade de retirar ao cidadão a sua liberdade física, mas só essa. Somos uma civilização evoluída, after all.

( categories: Levantai Hoje de Novo... )

... do que sonha a nossa vã filosofia...

Submetido por SMP em 17 Maio, 2005 - 17:44



Estas fotos, que há muito circulam na Net, sempre me intrigaram. Por várias vezes tentei descobrir a sua proveniência, sem êxito. É claro que racionalmente qualquer um de nós conclui que não se trata de uma criatura viva. Mesmo assim, foi com um misto de alívio que vi os esforços de um leitor do BoingBoing serem mais bem sucedidos. Sem dúvida, uma série de cabeças pensa melhor do que uma. A devida vénia à artista e à obra.

P.S.: Já agora, qualquer coisa que se chame Natureza Morta com Células Estaminais é assustadoramente promissora. E não, também não é uma criança a sério.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Sonhos de consumo

Submetido por SMP em 17 Maio, 2005 - 05:35

Há uns anos atrás, o meu ultimate projecto de vida (o meu sonho de consumo, como diria o outro) passava por uma vivenda ao pé do mar, com cadeiras de lona às riscas amarelas e brancas na varanda e um Porsche Carrera na garagem. O realismo vai invadindo mesmo os sonhos, e actualmente posso dizer que me contentava com um package de um T0, quiçá Duplex, equipado à minha moda, e um Smart na baía de estacionamento.
Mas mesmo os inevitáveis compromissos entre o princípio do prazer e o princípio da realidade podem maximizar aquele, e obnubilar esta. A foto que se segue respeita ao projecto Loftecube: um conceito inovador de casa temporária (ou menos temporária) para pessoas de hábitos nómadas, destinado a aproveitar o espaço desocupado e plano dos topos dos edifícios do Berlim do pós-guerra. Estes módulos pré-construídos poderiam ser arrendados (bom... aqui sempre se deveria perguntar se não se trataria de um misto de arrendamento e aluguer, dada a informação que se segue), mantendo-se fixos no mesmo local ou, pelo contrário, acompanhar o seu dono, fazendo-se transportar em helicópteros ou gruas. A área é, enfim, razoável, para um
habitat do género, e devo dizer que o objecto me cativou completamente. O downside é o preço, provavelmente razoável tendo em vista a qualidade e resistência dos materiais, mas um tanto desincentivador para quem não se importasse de correr o risco - 55 000 euros, a que não podem deixar de acrescer os custos, provavelmente monumentais, com o transporte do módulo pré-fabricado.



Outra interessante alternativa à cada vez mais obsoleta construção «de pedra e cal» é esta Flatpak House, um sistema de componentes pré-fabricados que é combinado pelo consumidor com a ajuda de uma equipa de designers com vista à criação de uma casa completa e funcional. Os preços são elevados, mas os resultados tremendamente agradáveis (já agora, o site também oferece momentos de bom humor). No fundo, como se refere no Inhabitat, trata-se da filosofia IKEA levada às suas extremas consequências.



Entre Snapshots de uma arquitectura do futuro, deixo aqui ainda a beleza deste concreto transmissor de luz (LiTraCon). Criado pelo arquitecto húngaro Ron Losonczi (de apenas 27 anos) através da incorporação de fibra óptica em concreto vulgar, o LitraCon não vê diminuída em nada a sua resistência, ao mesmo tempo que permite que as silhuetas do mundo exterior sejam vislumbradas do interior dos edifícios. A alegoria da caverna, revisitada...



Também ficamos a dever à fibra óptica, e à empresa sueca Parans, no mesmo capítulo, um sistema de painéis solares que, colocados no telhado dos edifícios, recolhem a luz solar e a transportam através de cabos de fibra óptica, assim permitindo iluminar as divisões mais obscuras das habitações. Os dispositivos emissores de luz ficam pendurados no tecto como lâmpadas ou candeeiros vulgares, distribuindo uma mistura de raios de luz paralelos e luz ambiente, que muda à medida que a luminosidade no exterior se altera. A ideia é trazer a luz natural para dentto das causas, e assim criar uma relação entre daqueles que vivem no seu interior com o exterior que os rodeia, mesmo na ausência de janelas ou clarabóias. Fantástico (lamenta-se o nome ;), mas nada é perfeito!).



Tudo novidades do Inhabitat.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Alegrias do SiteMeter

Submetido por SMP em 17 Maio, 2005 - 05:24
Quando eu já me tinha habituado a ver evoluir os referrals do meu blog de «raparigas checas nuas» e «simpatias para aumentar os seios/atrasar a menstruação/evitar a gravidez» para «fotos de canadianos nus (é escusado vasculhar os artigos: declaro desde já que não tenho nenhuma), eis senão quando descubro que estou em primeiro lugar no Google para esta pesquisa.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Infância

Submetido por SMP em 15 Maio, 2005 - 21:11

Um destes dias, seguia eu a cantar aquele fado de Lisboa que conta as desventuras amorosas da Severa:


«O amante não apareceu, a triste Severa, sempre fiel
Chamou a Tia Macheta, velha alcoveta, para saber dele.
A velha deitou as cartas, sebentas, fartas de mãos tão sujas
E antes de as embaralhar, pôs-se a grasnar como as corujas»

O Doce Geek, entre risos, recordou-me que as corujas não grasnam. Eu defendi-me com o teor literal do fado que, de resto, outros podem confirmar; mas sempre acrescentei que, efectivamente, quem grasnava eram as rãs. Opinião com que ele, de resto, também não concordou, mas da qual eu não arredei pé, porque da parte de trás da minha mente havia uma voz a gritar-me «Grasna a rã, ruge o leão». E pronto. Fiquei-me a pensar nas falas dos animais e naquele velho poema que aprendi nos livros escolares dos meus pais «Palram pega e papagaio, e cacareja a galinha...» - foram esses os meus primeiros livros também, oficiosos e não oficiais, capas de caravela e folhas de fábula... a história da ferradura de S. Pedro, o português-de-Portugal e o português-de-Angola, A Velhinha e o Jumento (Pela estrada fora, Toc-toc-toc/ Guia o jumentinho uma velhinha errante...), a Cruz de Cristo ( Cruz de Cristo, Cruz das Velas, das antigas caravelas...)
A estes juntavam-se a história da �?guia e da Coruja, A Pena e o Tinteiro (Uma pena presumida/De escrever grandes sentenças...), a Raposa e o Lobo (Quando tudo era falante, Diz que a raposa caiu...), o Moleiro e o Carvoeiro (Um moleiro e um carvoeiro/Travaram-se de razões...), que os meus pais, com paciência de santo, dramatizavam entre si e gravavam, com as suas próprias vozes, em cassetes audio, que eu depois gastava de tanto ouvir.

Constatando que já não sabia de cor os versos, que aos dez anos teria recitado de um fôlego, lembrei-me de os procurar nesta auto-estrada da informação. Foi fácil encontrá-los. O mesmo não se diga da minha versão favorita da Panela de Ferro e da Panela de Barro, que em tempos, a propósito de alianças entre nações, quis referir num blog e, à falta de outra solução, me senti tentada a transcrever de cor. Na altura temi abusar da paciência dos interlocutores; mas, sendo este blog o meu, um dos próximos posts ser-lhe-á dedicado.
Aí vai então, com a devida vénia à fonte, a escola EB1 Frossos :

Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha
Os ternos pombos arrulham
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro
Grasna a rã, ruge o leão
O gato mia, uiva o lobo
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre calavo,
Os elefantes dão urros
A tímida ovelha bale,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa
(Bichinho muito matreiro);
Nos ramos cantam as aves
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem às vezes gorjeios,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as dominhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o moquito endadonho
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o suco das flores
Costuma a abelha zumbir.

Bramem os tigres, as onças,
Pia, pia, o pintainho;
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros;
O cordeirinho, balidos;
O macaquinho dá guinchos;
A criancinha, vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais.
Nos versos lidos acima
Se econtram, em pobre rima,
As vozes dos principais.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

A vingança serve-se fria como galinha podre

Submetido por SMP em 12 Maio, 2005 - 02:01

Subjacentes às relações que somos forçados a manter no quotidiano da dita sociedade civilizada estão, na maior parte das vezes, intrincados jogos de poder e cálculos de força própria
vs. força alheia que pouco ou nada se deixam adivinhar nos hipócritas sorrisos com que encaramos o próximo. Ninguém pode constatar isto com maquiavelismo mais certeiro que um economista. Este relato e a respectiva conclusão no Freakonomics são de um hilariante cinismo, que poderia dar muito a ganhar ao consumidor moderno.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Assim se vê a força do PC

Submetido por SMP em 11 Maio, 2005 - 19:32


No Brasil, o subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano, organizou uma cartilha que reúne 96 palavras, expressões e piadas consideradas pejorativas e que revelam generalizações e discriminações contra pessoas ou grupos sociais, distribuída na última semana a parlamentares, professores, policiais, jornalistas, organizações não-governamentais e pessoas envolvidas com políticas de direitos humanos.


«Segundo ele o objetivo é provocar polêmica e levantar o debate “A secretaria não tem interesse de estabelecer regras ou qualquer forma de controle. O objetivo é chamar a atenção para que a sociedade possa pensar mais na linguagem que usa e mostrar como palavras e expressões usadas corriqueiramente no dia-a-dia escondem preconceitos e discriminações enraizados�?, afirma Cipriano.
Na cartilha, foram incluídas expressões como "a coisa ficou preta", "farinha do mesmo saco�?, “maria vai com as outras�?, e palavras como veado, burro, aidético, sapatão, gilete, baianada, ladrão, judiar e até comunista. Alguns exemplos são inesperados: não se deve chamar de "palhaço" uma pessoa pouco séria ou de "barbeiro" o motorista inábil ou que comete infrações, porque os termos ofenderiam os profissionais dessas áreas.»

Pois. Eu quero acreditar nas boas intenções do senhor e da respectiva secretaria, mas há realmente vertentes deste neo-PC (por PC, já se vê, pretendemos referir o Politicamente Correcto, que aliás é o próprio e esclarecedor título da cartilha, e não fazer referência a qualquer força ideológica...) que caem no mais desusado ridículo. Qualquer coisa de orwelliano.

«O escritor João Ubaldo Ribeiro afirmou estar “estarrecido�? com a cartilha. Ele distribuiu a amigos um e-mail com críticas à cartilha e se demonstrando preocupado com o risco do texto servir de base para alguma norma do governo federal sobre a linguagem que deve ser usada no País.
“Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, preconceituoso (ele, sim), asnático, deletério e potencialmente destrutivo -- e, o que é pior, custeado com o nosso dinheiro�?, escreve. “Quanto tempo falta para que os burocratas desocupados que incham a máquina governamental regulem nossa conduta sexual doméstica ou nosso uso de instalações sanitárias?�?
Ubaldo estranha a censura as palavras "negro", "preto", "escuro" e semelhantes, nos casos em que não estiverem sendo usadas sem relação alguma com a cor da pele de ninguém. “As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os negros, quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)?�?, questiona.»

João Ubaldo Ribeiro conhece a censura - até no nosso país, depois de o engenheiro Belmiro ter proibido a venda da sua obra A Casa dos Budas Ditosos nos hipermercados do seu grupo. Já agora, acrescente-se que, do meu ponto de vista, o empresário fê-lo com toda a legitimidade, numa óptica de economia de mercado e de propriedade privada; mas nem por isso deixou de ser uma atitude idiota que, aliás, propiciou ao livro publicidade gratuita e lhe granjeou um público que, de outra forma, talvez não tivesse, ainda que merecesse. Felizmente as Bibliotecas Públicas não se deixam (ainda) enredar nesse tipo de dilemas morais e pude lê-lo,bem como toda a minha família, emprestado à de Ovar. Como, mais tarde, o seu Diário do Farol, comprado algures num alfrarrabista de Mártires da Liberdade, provavelmente também pouco dado a fervores conservadores.
(Que passado tanto tempo sobre Sade e Henry Miller o que escreve Ubaldo Ribeiro ainda possa chocar alguém, é mistério grande, que não pretendo resolver aqui...)
Mas ainda mais me espantei com a informação que se segue...

«Outra expressão controvertida recomendada pela cartilha é o uso da palavra “entendido�?, além de gay para se referir a homossexuais masculinos. Os grupos de defesa dos homossexuais não gostam da palavra “entendido�? e preferem apenas o termo direto: gay.»

Queeeeé? «Entendido»? Em quê? Viver é aprender...

«Eu também prefiro o termo direto. O mais correto é mesmo homossexual ou gay. Mas ainda existem alguns grupos e textos onde os próprios homossexuais se referem desta forma�?, afirma Cipriano. Ele admite, entretanto, a possibilidade de discutir com os grupos a elaboração de uma cartilha específica sobre sexualidade.»

Era só o que nos faltava... ditadores de linguagem...

Excertos do Último Segundo, via Aviz.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Rodrigo Cambará

Submetido por SMP em 9 Maio, 2005 - 21:22

A semana passada, numa daquelas aborrecidíssimas mas necessárias visitas ao Minipreço porque falta sempre qualquer coisa, reparei no dístico com o nome da rapariga de caixa. Chamava-se Bibiana. Pensei na única Bibiana que conheci.


«Rodrigo Cambará seguiu com o olhar a moça de vestido de cassa azul e lenço na cabeça. Achara-a tão bonita que tivera o desejo de dirigir-lhe a palavra, sob qualquer pretexto. Podia perguntar-lhe de quem era a sepultura diante da qual estava ajoelhada. Ou simplesmente começar dizendo - «Bonito dia, não?» Tinha gostado da cara da rapariga. Mais do que isso: tinha ficado excitado. Não era homem que se deixasse fascinar facilmente. Gostava de mulher, isso gostava... Mas nunca - que se lembrasse - tinha ficado tão impreesionado por nenhuma assim à primeira vista.
Viu a moça de azul correr, quase pisando as sepulturas, na direcção de um casal. Sorriu, apertou o chapéu nas mãos e resolveu aproximar-se do grupo. No fim de contas não era nenhum bicho e a coisa mais natural do mundo era uma pessoa falar com outra.
Caminhou para Pedro Terra, lentamente, de cabeça erguida, e ao distinguir as feições daquele rosto queimado, teve a impressão de que elas lhe eram vagamente familiares. A moça de azul, vendo-o acercar-se, voltou-lhe bruscamente as costas. «Potranquinha arisca», pensou Rodrigo. E o seu interesse pela rapariga aumentou.
- Com o permisso de vosmecê, patrício! - exclamou ele, dirigindo-se a Pedro. - Sou de fora e nunca vim a este cemitério. Podia me informar de quem é aquela sepultura?
Apontou para o jazigo da família Amaral. Pedro Terra encarou o desconhecido, de sobrolho franzido, e, como quem quer cortar a conversa, respondeu seco:
- Está escrito na porta.
Rodrigo não se deu por vencido.
- Muitas gracias, amigo. Vosmecê mora no povo?
- Moro.
Então o forasteiro descobriu com quem se parecia aquele homem de poucas palavras.
- Não será por acaso parente do Juvenal terra?
- O Juvenal é meu filho.
- Logo vi. São muito parecidos e têm quase a mesma voz.
- Donde é que vosmecê conhece o Juvenal?
- Daqui mesmo. Somos amigos. Ele não lhe disse?
Pedro viu então com quem estava falando. Era o homem que tocava violão e cantava na venda do Nicolau. Mirou-o de alto a baixo e retorquiu:
- Ele não me disse nada.
Enquanto os dois conversavam, as mulheres tinham-se afatsado e agora estavam paradas, de olhos baixos e em silêncio.
- Eu sou o capitão Rodrigo Cambará, criado de vosmecê.
Estendeu a mão, que Pedro segurou frouxamente, por um rápido segundo. Querendo estabelecer conversação, Rodrigo disse:
- Ouvi dizer que você esteve na guerra de 1811.
- Na de 800 também. E em muitas outras. Por que pergunta?
- É que também estive da de 811 e em todas as que vieram depois.
Pedro limitou-se a sacudir a cabeça. O capitão perguntou:
- Em que força serviu vosmecê?
- Andei com a gente do coronel Ricardo Amaral, o primeiro povoador destes campos.
Disse isto e achou que já tinha falado demais. Rodrigo olhou para as mulheres e sorriu com amabilidade.
- Pelo que vejo são gente da sua família.
- São.
Nenhuma das mulheres sequer levantou a cabeça.
- Bom - fez Pedro, fazendo para elas um sinal. - Vamos embora.
Olhando para Rodrigo murmurou:
- Passe bem.
Pôs-se a caminhar rumo do portão do cemitério, seguido das mulheres. Bibiana passou pelo forasteiro de cabeça baixa e Rodrigo devorou-a com os olhos. Viu que ela tinha as faces coradas como uma fruta madura e que os seus seios eram pontudos; imaginou como deveriam ser rijos e quentes... Apalpá-los seria o mesmo que apertar duas goiabas maduras. Sentiu um calor bom em todo o corpo... Mas, percebendo que ia perder a oportunidade de fazer boas relações com o pai da moça, deu algumas passadas largas e alcançou Pedro Terra já do lado de fora do cemitério.
- O amigo me desculpe se sou importuno - começou a dizer, enquqnato o outro voltava para ele o rosto em que havia uma indisfarçável expressão de contrariedade. - Eu queria le pedir um conselho.
- Mas vosmecê nem me conhece...
- Ouvi dizer que você é um homem muito experimentado.
- Nem tanto.
-Acontece que eu estou em dúvida e precisava ouvir alguém.
As duas mulheres aproximaram-se da carroça que os trouxera até ali. E quando Bibiana subiu, a saia ergueu-se-lhe um pouco e Rodrigo vislumbrou-lhe o tornozelo.
- Que espécie de conselho vosmecê deseja?
-Pois resolvi ficar em Santa Fé. Sou solteiro, não tenho parentes e pretendo sentar juízo. Queria empregar direito o dinheirinho que tenho e não sei bem o que vou fazer. Vosmecê acha que devo plantar ou criar gado?
Pedro escutou-lhe o rosto por um instante e depois perguntou:
- Vosmecê quer mesmo a minha opinião franca?
- Foi p'ra isso que pedi o seu conselho.
- Está bem. O meu conselho é que vosmecê monte a cavalo e vá embora daqui o quanto antes.»

in Um certo capitão Rodrigo,
de Erico Veríssimo
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Entrevista

Submetido por SMP em 9 Maio, 2005 - 21:16


Aqui me tens, nervoso, à tua espera,
pra este encontro que te não marquei.
Mas foi pelo teu gosto do inconforto
que me pareceu este lugar propício
ao nó de uma entrevista derradeira.

Não tens onde sentar-te. Os meus joelhos,
cada vez mais ossudos e mais magros,
cravaram-se na terra: são ciprestes,
e marcam, sombrios, o limite
deste meu infortúnio amargurado.

Nem tens os meus joelhos pra sentar-te.
E nada do meu corpo te prometo,
que nada do meu corpo agora sei,
embora o sinta como a um rebanho
que indiferente e calado pastoreio.

Deixá-lo-ei por instantes entregue
ao cão de guarda de que me esqueci.
E passearei, sem corpo nem desejos,
ao lado dos teus gestos, mas sem vê-los,
nesta entrevista última e sem fim.

Mas quero, neste encontro descarnado,
dizer-te o que tu foste e o que não foste:
a insónia, o sonho, a súmula de tudo
que eu podia temer e desejar
das linhas insondáveis do teu rosto.

Aqui me tens, nervoso, por saber
que sem corpo serei tão desastrado
como era quando outrora lhe entregava
as ingratas missões de que eu fugia
- e o fazia exprimir-se em meu lugar.

David Mourão Ferreira

( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Manderlay

Submetido por SMP em 9 Maio, 2005 - 19:27

Através de Túlio Viana, um dos muitos juristas brasileiros que - concorde-se ou não com as suas ideias -, claramente não pararam no tempo, fiquei a saber que o trailer de Manderlay, o segundo filme da trilogia de Lars Von Trier sobre os Estados Unidos da América (o primeiro foi o genial Dogville) já está disponível aqui.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Do espírito ateniense

Submetido por SMP em 9 Maio, 2005 - 18:01

Revisitando o Heterodoxias, do Prof. Paulo Ferreira da Cunha - hoje (com grande pena nossa) descontinuado - encontrei o seguinte graduation speech de Neil Postman, professor na Universidade de Nova Yorque. Um vislumbre do espírito universitário, o verdadeiro, que tanta falta fazia ir construindo neste nosso Portugal dominado por Visigodos (agora metaforicamente falando...), antes que seja tarde.
Já agora, a generosidade do autor na cedência dos direitos sobre o texto a quem dele puder fazer proveito, sem necessidade da sua aprovação ou sequer de referência à sua pessoa, bem demonstra a nobre intenção que guiou a pena. A vénia fica na mesma. É bem merecida.

MY GRADUATION SPEECH

by Neil Postman

Having sat through two dozen or so graduation speeches, I have naturally wondered why they are so often so bad. One reason, of course, is that the speakers are chosen for their eminence in some field, and not because they are either competent speakers or gifted writers. Another reason is that the audience is eager to be done with all ceremony so that it can proceed to some serious reveling. Thus any speech longer than, say, fifteen minutes will seem tedious, if not entirely pointless. There are other reasons as well, including the difficulty of saying something inspirational without being banal. Here I try my hand at writing a graduation speech, and not merely to discover if I can conquer the form. This is precisely what I would like to say to young people if I had their attention for a few minutes.

If you think my graduation speech is good, I hereby grant you permission to use it, without further approval from or credit to me, should
you be in an appropriate situation.
________________________________________________

Members of the faculty, parents, guests, and graduates, have no fear. I am well aware that on a day of such high excitement, what you require, first and foremost, of any speaker is brevity. I shall not fail you in this respect. There are exactly eighty-five sentences in my speech, four of which you have just heard. It will take me about twelve minutes to speak all of them and I must tell you that such economy was not easy for me to arrange, because I have chosen as my topic the complex subject of your ancestors. Not, of course, your biological ancestors, about whom I know nothing, but your spiritual ancestors, about whom I know a little. To be specific, I want to tell you about two groups of people who lived many years ago but whose influence is still with us. They were very different from each other, representing opposite values and traditions. I think it is appropriate for you to be reminded of them on this day because, sooner than you know, you must align yourself with the spirit of one or the spirit of the other.

The first group lived about 2,500 years ago in the place which we now call Greece, in a city they called Athens. We do not know as much about their origins as we would like. But we do know a great deal about their accomplishments. They were, for example, the first people to develop a complete alphabet, and therefore they became the first truly literate population on earth. They invented the idea of political democracy, which they practiced with a vigor that puts us to shame. They invented what we call philosophy. And they also invented what we call logic and rhetoric.
They came very close to inventing what we call science, and one of them-Democritus by name-conceived of the atomic theory of matter 2,300 years before it occurred to any modern scientist. They composed and sang epic poems of unsurpassed beauty and insight. And they wrote and performed plays that, almost three millennia later, still have the power to make audiences laugh and weep. They even invented what, today, we call the Olympics, and among their values none stood higher than that in all things one should strive for excellence. They believed in reason. They believed in beauty. They believed in moderation. And they invented the word and the idea which we know today as ecology.

About 2,000 years ago, the vitality of their culture declined and these people began to disappear. But not what they had created. Their
imagination, art, politics, literature, and language spread all over the world so that, today, it is hardly possible to speak on any subject without repeating what some Athenian said on the matter 2,500 years ago.

The second group of people lived in the place we now call Germany, and flourished about 1,700 years ago. We call them the Visigoths, and you may remember that your sixth or seventh-grade teacher mentioned them. They were spectacularly good horsemen, which is about the only pleasant thing history can say of them. They were marauders-ruthless and brutal. Their language lacked subtlety and depth. Their art was crude and even grotesque.
They swept down through Europe destroying everything in their path, and they overran the Roman Empire. There was nothing a Visigoth liked better than to burn a book, desecrate a building, or smash a work of art. From the Visigoths, we have no poetry, no theater, no logic, no science, no humane politics.

Like the Athenians, the Visigoths also disappeared, but not before they had ushered in the period known as the Dark Ages. It took Europe
almost a thousand years to recover from the Visigoths.

Now, the point I want to make is that the Athenians and the Visigoths still survive, and they do so through us and the ways in which we
conduct our lives. All around us-in this hall, in this community, in our city-there are people whose way of looking at the world reflects the way of the Athenians, and there are people whose way is the way of the Visigoths.
I do not mean, of course, that our modern-day Athenians roam abstractedly through the streets reciting poetry and philosophy, or that the modern-day Visigoths are killers. I mean that to be an Athenian or a Visigoth is to organize your life around a set of values. An Athenian is an idea. And a Visigoth is an idea. Let me tell you briefly what these ideas consist of.

To be an Athenian is to hold knowledge and, especially the quest for knowledge in high esteem. To contemplate, to reason, to experiment, to
question-these are, to an Athenian, the most exalted activities a person can perform. To a Visigoth, the quest for knowledge is useless unless it can help you to earn money or to gain power over other people.

To be an Athenian is to cherish language because you believe it to be humankind's most precious gift. In their use of language, Athenians
strive for grace, precision, and variety. And they admire those who can achieve such skill. To a Visigoth, one word is as good as another, one sentence in distinguishable from another. A Visigoth's language aspires to nothing higher than the cliché.

To be an Athenian is to understand that the thread which holds civilized society together is thin and vulnerable; therefore, Athenians
place great value on tradition, social restraint, and continuity. To an Athenian, bad manners are acts of violence against the social order. The modern Visigoth cares very little about any of this. The Visigoths think of themselves as the center of the universe. Tradition exists for their own convenience, good manners are an affectation and a burden, and history is merely what is in yesterday's newspaper.

To be an Athenian is to take an interest in public affairs and the improvement of public behavior. Indeed, the ancient Athenians had a word for people who did not. The word was idiotes, from which we get our word "idiot." A modern Visigoth is interested only in his own affairs and has no sense of the meaning of community.

And, finally, to be an Athenian is to esteem the discipline, skill, and taste that are required to produce enduring art. Therefore, in
approaching a work of art, Athenians prepare their imagination through learning and experience. To a Visigoth, there is no measure of artistic excellence except popularity. What catches the fancy of the multitude is good. No other standard is respected or even acknowledged by the Visigoth.

Now, it must be obvious what all of this has to do with you.
Eventually, like the rest of us, you must be on one side or the other. You must be an Athenian or a Visigoth. Of course, it is much harder to be an Athenian, for you must learn how to be one, you must work at being one, whereas we are all, in a way, natural-born Visigoths. That is why there are so many more Visigoths than Athenians. And I must tell you that you do not become an Athenian merely by attending school or accumulating academic degrees. My father-in-law was one of the most committed Athenians I have ever known, and he spent his entire adult life working as a dress cutter on Seventh Avenue in New York City. On the other hand, I know physicians, lawyers, and engineers who are Visigoths of unmistakable persuasion. And I must also tell you, as much in sorrow as in shame, that at some of our
great universities, perhaps even this one, there are professors of whom we may fairly say they are closet Visigoths. And yet, you must not doubt for a moment that a school, after all, is essentially an Athenian idea. There is a direct link between the cultural achievements of Athens and what the faculty at this university is all about. I have no difficulty imagining that Plato, Aristotle, or Democritus would be quite at home in our class rooms. A Visigoth would merely scrawl obscenities on the wall.

And so, whether you were aware of it or not, the purpose of your having been at this university was to give you a glimpse of the Athenian
way, to interest you in the Athenian way. We cannot know on this day how many of you will choose that way and how many will not. You are young andit is not given to us to see your future. But I will tell you this, withwhich I will close: I can wish for you no higher compliment than that in the future it will be reported that among your graduating class the Athenians mightily outnumbered the Visigoths.

Thank you, and congratulations.
________________________________________________

Neil Postman is a critic, writer, communications theorist, and professor of communication arts and sciences at New York University. Educated at the State University of New York and Columbia University, he holds the Christian Lindback Award for Excellence in Teaching and in 1987 was given the George Orwell Award for Clarity in Language by the National Council of Teachers of English. He was for ten years editor of Et Cetera, the journal of general semantics. His sixteen previous books include Amusing Ourselves to Death, Teaching as a Subversive Activity, The Soft Revolution, and The Disappearance of Childhood.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Liaisons non dangereuses

Submetido por SMP em 9 Maio, 2005 - 17:55

Foi com alegria que descobri que o Levantai merecera um link na lista de Blawgs gerais da �?rea Científica de Direito da ESTIG - Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Beja, do Instituto Politécnico de Beja. Aquela página é um verdadeiro manancial de informação para qualquer pessoa que se interesse pelo mundo jurídico e tem-me apresentado a muitos dos meus blawgs favoritos. Por isso e pela referência, o meu obrigado.

( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Big Pizza is watching you

Submetido por SMP em 9 Maio, 2005 - 17:37

O Jim do Jdedman.com relata uma arrepiante experiência vivida por quem apenas queria comer uma pizza no conforto do seu lar. O mais arrepiante é pensar que, não fosse o cliente um jurista - um jurista que mesmo assim, entre a bizarria do «monstro orwelliano» e a fome que sentia, acabou por ceder - e não teria oferecido qualquer resistência às exigências perfeitamente irracionais da empresa.

«GEORGE ORWELL PIZZERIA: Tonight, I ordered a pizza. In my most American of mindsets, I thought such a meal would go well with my evening of watching 24. A corporate meal to accompany corporate art, as it were. I had ordered the pizza by telephone, as this particular company does not yet accept orders via the Internet. When asked, I told the attendant on the phone that I would be paying by check. So far, this was a rather ordinary transaction - a commercial exchange worthy of neither note or observation.
Well, just after 8, I hear a rap at the door which alerted me to the presence of the pizza delivery person (who was, judging from the age, apparently a young high school student or recent high school graduate).
I tender the check to the pizza delivery person, who asks if the requisite information was on the instrument. I had written my telephone number on the check, but the pizza person asked that I also include my drivers license number and date of birth.
I sighed.
Then she said something about a "thumbprint."
Surely I didn't hear that as I thought I did.
She then produced a tiny inkpad for my thumbprint on the check.
I said that I wasn't really comfortable providing a thumbprint. (After all, if the aim is to deter fraud, the company already has a confirmed telephone number, a confirmed physical address which was obviously my living quarters, a confirmed series of previous transactions by credit card, as well as the information that I provided on the face of the check). I told her that I had provided a sufficient amount of information and that it should suffice.
She then asked for the pizza back.
I then queried her about the policy.
She said it was "the law."
"Oh, really," I replied. "What law is that?"
She stammered a bit and said something about a newspaper article.
I then asked for her manager's name. I called the pizza place and inquired about the policy. The assistant manager to whom I spoke said that it was a franchise policy (but not a law). She told me that the pizza delivery person could not tender delivery of the meal without the thumbprint.
I then asked if the policy was so paramount to the transaction why the order taker did not reveal it when I remarked that I would be paying by check.
The assistant manager said that it had been a policy for so long that she thought "everyone already knew about it."
Has anyone ever provided a thumbprint verification for a pizza man?
Ultimately, I caved and offered the thumbprint, as I didn't want to annoy my neighbors by continuing to argue nor did I want to have to order another meal (or heaven forbid, fire up the grill and make something for myself). However, I find several possible complaints, from the initial failure to disclose the policy to the pizza delivery person's mischaracterization of it as required by law.
When you think about it, it's not like the pizza delivery is inherently shady so as to require such mammoth fraud deterrence measures, either. I mean, they know where I live. They know my number. What the heck?»
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Submetido por SMP em 6 Maio, 2005 - 19:07



Este é para a Maria Heli, com votos de uma rápida recuperação.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

What are you doing with the rest of your life?

Submetido por SMP em 4 Maio, 2005 - 02:01


What are you doing the rest of your life?
North and south and east and west of your life?
I have only one request of your life
That you spend it all with me.
All the seasons and the times of your days.
All the nickels and the dimes of your days.
Let the reasons and the rhymes of your days.
All begin and end with me.
I want to see your face,
In every kind of light,
In fields of gold and
Forests of the night;
And when you stand before
The candles on a cake.
Oh let me be the one to hear
The silent wish you make.
Those tomorrows waiting deep in your eyes
In the world of love you keep in your eyes,
I’ll awaken what’s asleep in your eyes,
It may take a kiss or two..
Through all of my life..
Summer, winter, spring and fall of my life,
All I ever will recall of my life
Is all of my life with you.

 Music: Michel Legrand; Lyrics: Alan Bergman and Marilyn Bergman
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Ou de como certos debates estão fadados à desgraça

Submetido por SMP em 4 Maio, 2005 - 00:49

Em busca de uma informação muito específica acerca da obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco, acabei por ir parar a esta troca de comentários no IMDB. Tudo começou com alguém querendo saber se a cena entre Christian Slater (no papel de Adso de Melk) e Valentina Vargas (a inesquecível rapariga) fingiram ou não a belíssima cena de amor que protagonizaram. Vejam por vocês próprios até onde conseguiu chegar um debate que se iniciou com um tópico, apesar de tudo, bastante específico. O Homem é, sem dúvida, um animal político.

( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Bizarros leilões

Submetido por SMP em 3 Maio, 2005 - 20:51

No tempo do consumismo, até o velho carro do novo Papa e o teste de gravidez positivo da Britney Spears estão ao alcance de um click.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )

Moot Court

Submetido por SMP em 3 Maio, 2005 - 20:43

Uma equipa do 2º ano do curso de Direito da FDUP constituída pelos estudantes Inês Ribeiro, Irene Terraseca, Maria João Dias e Pedro Sousa ganhou no dia 30 de Abril em Lisboa o Moot Court Nacional de Direito Constitucional organizado pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e onde estavam representadas as várias faculdades de direito – públicas e privadas. A equipa ganhou não só o prémio geral como todos os parciais – de melhor orador final e de melhor orador nas eliminatórias, etc.
Não me surpreende, mas alegra-me, como não podia deixar de ser. Os maiores parabéns à equipa e à Profª Doutora Luísa Neto.

Notícia primeiro descoberta no Cum Grano Salis.
( categories: Levantai Hoje de Novo... )
feed XML