Lisbon revisited

Submetido por SMP em 7 Janeiro, 2006 - 07:46

Antes de ir para Lisboa, nunca me tinha apercebido do porquê de as pessoas falarem tanto numa «solidão de cidade grande». Não tinha. Quando descobri o Porto como terra-de-viver, há mais de dez anos, todos os recantos foram conquistados em companhia. Os cafés, as lojas, os jardins, as calçadas, foram todos calcorreados sempre com amigos que lhes davam o sabor da composse. As gentes em correria doida pela Rua de Santa Catarina, quando se vai entretido a conversar, não têm nada de possante. E quando as revisitamos mais tarde, mesmo sós, conservam ainda a sensação de conhecimento partilhado. Não aterram ninguém.
Já o sapatear de centenas de pés metro-escadas, escadas-metro, quando seguimos só connosco, tem muito que se lhe diga. Não é tanto o não haver alguém ao nosso lado naquele ponto concreto da urbe: é nunca ter havido, é tê-lo havido pouco. É enfrentar, sem recordações, aquela mole gigantesca de humanos perfeitamente estranhos, relativamente aos quais nem sequer existe a ilusão de nos terem conhecido contextualizados, rodeados, de nos terem sabido os contornos por confronto com algo mais que este invólucro de carne.
É nesse ponto exacto dos acontecimentos que o animal gregário que há em nós, pisoteado e esquecido, ensaia uma ressurreição. Os olhares dos desconhecidos parecem subitamente mais simpáticos (os dos desconhecidos individuais, repare-se, porque esse grande olhar desconhecido e anónimo que sai do metro em enxame assusta mais do que apela). A palavra que no nosso lar desdenharíamos soa a acordes musicais. Talvez encontre mesmo, blasfémia das blasfémias, uma resposta cortês.
A cidade é sempre muito grande para os que a tomam sós.